terça-feira, 4 de maio de 2010

Chico Xavier, o mito cada vez mais santificado pelos fãs


Nesse último sábado assisti o badalado longa-metragem “Chico Xavier”, do diretor Daniel Filho. O filme surpreende, pois foge do lugar-comum das produções nacionais. O interior de Minas Gerais é retratado com uma fotografia muito bonita e ainda contém alguns efeitos especiais. O ritmo da história não imita novela, como é comum em alguns sucessos nacionais como “Olga”. Agora, já a história...

O filme só faltou trocar o nome Chico Xavier por Jesus Cristo. O médium é retratado como um homem santíssimo, caridoso, não interesseiro, mas somente um pouco vaidoso com sua peruca exótica. Xavier é perseguido por implacáveis opositores, incluindo sua família, a Igreja Católica e parte da imprensa. Os algozes são pintados como verdadeiros demônios que não compartilhavam de toda a bondade daquele “santo”.

Por que o filme não mostrou a humanidade de Chico Xavier? Era ele um homem sem defeitos? É claro que não. As polêmicas envolvendo o seu centro espírito não são retratados no filme. Quando um personagem aponta fraude em alguma cena, logo acontece algum fato que desmente a suposta fraude. Na história que se passa nas telas ele é uma mistura de Jesus Cristo, Francisco de Assis, Madre Teresa de Calcutá e fisicamente parecido com Gandhi.

Alguns espíritas fazem questão de enfatizar: “o diretor não é espírita”. Ora, como se isso fizesse grande diferença no Brasil onde o espiritismo e a sua doutrina da reencarnação é aceita por boa parte da população. O longa faz um papel que eu já esperava: a mitificação do médium. Os homens sem pecado não existem, mas parece que só Daniel Filho acredita em sujeitos imaculados. Filho parece acreditar em um Chico Xavier, digamos, além-humano. Em entrevista para o jornal “O Estado de S. Paulo”, Daniel Filho chegou a afirmar que Xavier era assexuado. Cada uma, hein?

E ainda teve crítico de cinema que abriu a boca para dizer: “Não é um filme chapa-branca”. Ora, não seria melhor assumir o proselitismo do longa-metragem? Não há crime na promoção de uma religião por meio do cinema, mas é ruim quando não se reconhece isso. Não dá para falar que é mera biografia.

Cenas do cinema

Nessa sessão foi a primeira vez que vi uma enorme quantidade de idosos no cinema. Uma senhora ao meu lado não parava de chorar e mexer em um saco plástico. Ou seja, tive que ouvir durante toda o filme o choro dessa mulher com o barulho da sacola. Nada mais agradável para o sacro silêncio do cinema. Mas a emoção dela me chamou atenção pelo fato que Chico Xavier trabalhava com pessoas vulneráveis a emoção, como mães que perderam os filhos e pobres interioranos em busca de uma cura desesperada. Alguma crítica acadêmica ou midiática dessa manipulação emotiva? É claro que não. Agora se fosse uma igreja evangélica...

Outra questão. Sempre que os algozes de Chico Xavier se manifestavam na tela havia um burburinho na sala. Ou seja, as pessoas manifestam a emoção de indignação conforme eram conduzidas pelas cenas. Tal fato nunca verifiquei com tanta força como nesse filme. É a manifestação que a maioria dos frequentadores das salas são, digamos, fãs e simpáticos ao médium.

O novo santo do país?

Resumindo. O filme é uma tentativa de tornar Chico Xavier o novo Padre Cícero do Brasil. O santo não canonizado. O mártir incompreendido pela cruel sociedade que sempre corrompe o bom selvagem. O verdadeiro filho do Brasil e que se associava aos espíritos do bem. É assim pintado naquela tela. Além, é claro, da eterna tentativa de misturar cristianismo e espiritismo. Ora, tal sincretismo é impossível. Os espíritas baseiam sua esperança na reencarnação que melhora o homem pelas boas obras, enquanto o cristianismo é baseada na esperança da ressurreição para uma vida eterna cujo sacrifício de Cristo é suficiente. Os cristãos sabem que suas obras são insuficientes diante do eterno amor de Deus. São duas crenças antagônicas que não são possíveis na mistura do caldo religioso brasileiro. Todo “cristão” espírita que conheci era um espírita mal resolvido. Só isso.

Leia mais:

- Uma análise sobre o “Novo Espiritismo” escrito pelo Dr. Paulo Romeiro, docente no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie:

http://www.agirbrasil.org.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=146&sg=13&id=183

- Livro completo sobre as principais crenças e ramos do espiritismo no Brasil escrito pelo teólogo Esequias Soares, que é graduado em línguas orientais pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Manual de Apologética Cristã. Editora CPAD.
http://teologiapentecostal.blogspot.com/

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