segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A crise na Europa e a escatologia


Nessa última semana as bolsas de todo o mundo caíram diante dos temores de calotes na Europa. Alguns países da União Europeia como a Grécia, Espanha, Irlanda, Itália e Portugal estão trazendo preocupação pelos altos déficits nas contas públicas. O déficit público acontece quando o valor das receitas de um governo são menores do que o valor de suas despesas. Os caminhos para resolver este problema são os aumentos de impostos, o corte de despesas e a desvalorização da moeda. Todas as soluções são custosas politicamente falando, além da complicação na aplicação destas políticas.

Pois bem. O que isso tem haver com escatologia? Tudo. Aliás, a nova crise na Europa, que é fruto da grande crise de 2008, desmistifica algumas tentativas de especular com a escatologia. Por quê? Diante desta crise algumas perguntas começaram a serem feitas pelos membros da União Europeia: Os países europeus com déficit mais equilibrados, como a Alemanha e Inglaterra, financiarão os demais países da União Europeia? Se cada país tivesse sua própria moeda, e não o Euro, não seria mais fácil os ajustes necessários para a saída da crise? Vale a pena essa grande união de países europeus?

Ora, são ou não perguntas significativas? O jornalista Floyd Norris, do jornal norte-americano The New York Times, pergunta em um artigo: “Muitos alemães ocidentais ficaram pasmos com o custo da unificação com o lado oriental. Se não gostaram de subsidiar seus próprios primos, gostarão de subsidiar gregos e portugueses?” [1]. Já o economista Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, argumenta que se os países europeus tivessem moeda própria poderiam recuperar competitividade com a desvalorização: “Se a Espanha tivesse sua própria moeda, este seria um bom momento para desvalorizá-la, mas ela não tem.”[2]. O modelo de uma unificação econômica sem uma unificação política cobra o seu preço. É bem provável que o revés pela união dos países da Europa cresça com o agravamento da crise.

Olhar uma União Europeia enfraquecida é algo que os escatólogos especulativos não pensaram. Assim como não pensavam no fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Até o final da década de 1980, todos os livros da escatologia especulativa traziam a URSS nas suas páginas. Quando ocorreu a queda do Muro de Berlim houve a necessidade de rescrever esses livros. Numa precisão impressionante, os escatólogos especulativos já viam a Europa como uma só nação, assim pronta para influenciar uma união global futura. As fragilidades de uma união supranacional se mostram graves com os problemas dos déficits em países periféricos da Zona do Euro. Será necessário rescrever novamente os livros de escatologia? É bem provável que sim.

Por que isso acontece? Ora, a escatologia virou brincadeira de mentes criativas.

Se faz uma leitura escatológica a partir dos acontecimentos, e não das Sagradas Escrituras

Os fatos determinam a leitura das Escrituras, e não o contrário. Tal caminho proporciona a eisegese, que é uma verdadeira forçação de barra do texto bíblico. Ou seja, tenta-se colocar uma ideia própria na Bíblia Sagrada, ao invés de construir uma ideia a partir do texto bíblico.

Se faz uma escatologia que tenta adivinhar os meandros do futuro

Quando se tenta achar o papel da China no Apocalipse, por exemplo, nada mais se faz senão um exercício de futurologia. O Apocalipse não foi revelado para uma tentativa de adivinhação do futuro. Apocalipse não é obra de Nostradamus.

A escatologia bíblica é pratica, não especulativa

O que a Bíblia se preocupa em nos ensinar sobre escatologia é que Jesus voltará. Isto é um fato. Jesus vem buscar sua igreja, e esta deve estar vigilante. Estas verdades não bastam? É preciso construir imaginação com o papel das nações ou das instituições políticas. Vigiar é preciso. Especular é desnecessário.

Escatologia distorcida levou uma nação contra Cristo

Em Israel se esperava um messias que viria libertar a nação da opressão imperialista de Roma. Esta era a escatologia dos religiosos da época. Um Cristo forte, libertador, imperador. Mas Cristo veio fraco numa manjedoura, pobre na pequena Belém e sem espírito revolucionário. O Cristo que veio não se adequou à escatologia da época. Então foi morto.

Portanto, pregando que Jesus vem já está bom. O que passa disto é invenção. Criatividade serve para publicitários, mas não teólogos. Especulação serve para filósofos, mas não para teólogos.

Referência Bibliográfica:

[1] NORRIS, Floyd. Países mais fracos testam a zona do euro. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 06 de fev. 2010. Economia. B6.

[2] KRUGMAN, Paul. A tragédia espanhola. Blog do Paul Krugman:
A consciência de um liberal. Disponível em:
Acesso em: 06 de fev. 2010.
http://www.teologiapentecostal.blogspot.com/

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